Terapias Complementares na Redução dos Sintomas do Climatério: Ensaio Clínico
Escrito por Leonice Fumiko Sato Kurebayashi
Estudo clínico compara auriculoterapia, terapia floral e toque terapêutico na redução dos sintomas do climatério, ansiedade, insônia e fogachos em mulheres.
Autores: Eliseth Ribeiro Leão, Maria Júlia Paes da Silva, Léia Fortes Salles, Ana Lucia Lopes Giaponesi, Leonice Fumiko Sato Kurebayashi Revista Científica: Cadernos de Naturologia e Terapias Complementares. 2015;4(6):11-19. Link para o artigo original (PDF da revista): link1, link2
Resumo Expandido
O climatério representa uma importante fase de transição na vida da mulher, marcada pela passagem do período reprodutivo para a não reprodutividade. Esse processo fisiológico geralmente ocorre entre os 40 e 60 anos e está associado a diversas alterações hormonais, físicas, emocionais e psicossociais que podem impactar significativamente a qualidade de vida. Entre os sintomas mais frequentes encontram-se fogachos, insônia, ansiedade, alterações de humor, palpitações, fadiga, cefaleias, irritabilidade, depressão e dificuldades relacionadas ao bem-estar geral. Estima-se que entre 60% e 80% das mulheres experimentem algum desses sintomas durante o climatério.
Diante das limitações e contraindicações da terapia hormonal para parte das mulheres, cresce o interesse por abordagens complementares que possam contribuir para o manejo dos sintomas climatéricos de forma segura e integrada. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo comparar a eficácia de três terapias complementares amplamente utilizadas: auriculoterapia, terapia floral e toque terapêutico. A pesquisa buscou avaliar seus efeitos sobre os sintomas do climatério, os níveis de ansiedade, a insônia e os fogachos.
Trata-se de um ensaio clínico randomizado realizado na cidade de São Paulo entre 2008 e 2010. Inicialmente foram recrutadas 267 mulheres, das quais 173 preencheram os critérios de inclusão. Após perdas e desistências ao longo do acompanhamento, 118 mulheres concluíram o estudo. As participantes foram distribuídas aleatoriamente em três grupos: Terapia Floral (44 participantes), Toque Terapêutico (31 participantes) e Auriculoterapia (43 participantes). O período de intervenção foi de três meses.
No grupo de auriculoterapia foram utilizadas agulhas semipermanentes em pontos relacionados aos sistemas energéticos tradicionalmente associados aos sintomas climatéricos, incluindo pontos do Fígado, Rim, Endócrino, Ovário e regiões relacionadas à tonificação energética. No grupo de terapia floral foram utilizadas essências florais selecionadas especificamente para o equilíbrio emocional e dos sintomas característicos do climatério. Já o grupo de toque terapêutico recebeu sessões semanais voltadas à harmonização do campo energético humano segundo os princípios dessa abordagem terapêutica.
A avaliação dos resultados foi realizada por meio do Índice Menopausal de Blatt e Kupperman, do Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE) e de instrumentos específicos para avaliação de insônia e fogachos. Os dados foram coletados antes e após o período de intervenção.
Os resultados demonstraram que as três terapias complementares promoveram melhora significativa dos sintomas do climatério quando analisadas individualmente. Houve redução estatisticamente significativa do índice menopausal em todos os grupos (p=0,000), indicando diminuição dos sintomas físicos e emocionais associados ao período climatérico. Entretanto, não foram encontradas diferenças estatísticas entre os grupos quanto à eficácia global das intervenções.
Apesar da ausência de diferenças estatísticas intergrupos, a análise do tamanho de efeito revelou resultados bastante expressivos. O grupo de Toque Terapêutico apresentou o maior impacto clínico, alcançando índice d de Cohen de 2,31, considerado um efeito extremamente elevado, com redução aproximada de 69% dos sintomas climatéricos. O grupo de Terapia Floral apresentou índice d de 1,89 e redução de 59% dos sintomas, enquanto a Auriculoterapia alcançou índice d de 1,63 e redução de 53% dos sintomas. Todos os tratamentos demonstraram efeitos clínicos importantes.
Em relação à ansiedade, observou-se redução significativa dos escores em todos os grupos. A média do Inventário de Ansiedade-Estado diminuiu de 42,73 para 37,31 pontos após as intervenções. Novamente, o maior tamanho de efeito foi observado no grupo de Toque Terapêutico (d=0,90), seguido pela Terapia Floral (d=0,67) e pela Auriculoterapia (d=0,35). Esses resultados sugerem que as terapias complementares podem exercer importante papel na promoção do equilíbrio emocional durante o climatério.
Os sintomas relacionados ao sono também apresentaram melhora significativa. Houve redução dos relatos de dificuldade para iniciar o sono, despertares noturnos e demora para retornar ao sono após despertar. Os fogachos diminuíram em todos os grupos, embora sem diferenças estatísticas entre as intervenções. Esses achados reforçam o potencial das terapias complementares para atuar sobre sintomas neurovegetativos frequentemente associados à queda hormonal característica do climatério.
Os autores destacam que a utilização das terapias complementares pode contribuir para uma abordagem mais integral da saúde da mulher, favorecendo não apenas a redução de sintomas físicos, mas também o fortalecimento dos aspectos emocionais, energéticos e psicossociais envolvidos nessa fase da vida. Além disso, ressaltam a importância de ampliar a oferta dessas práticas nos serviços de saúde, especialmente para mulheres que não desejam ou não podem utilizar terapia hormonal.
O estudo conclui que auriculoterapia, terapia floral e toque terapêutico foram eficazes na redução dos sintomas do climatério, da ansiedade, da insônia e dos fogachos. Embora não tenham sido encontradas diferenças estatísticas entre as três terapias, todas apresentaram benefícios clínicos relevantes, com destaque para o maior tamanho de efeito observado no grupo submetido ao toque terapêutico.
Importância do artigo para as PICS e a Saúde da Mulher
Este estudo é um dos raros ensaios clínicos brasileiros que compararam diretamente diferentes modalidades de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) para o tratamento dos sintomas do climatério. Sua relevância está em demonstrar que abordagens não farmacológicas podem contribuir significativamente para a melhora da qualidade de vida das mulheres durante essa fase de transição hormonal.
A pesquisa fortalece a inserção das PICS no cuidado à saúde da mulher e oferece evidências científicas para a utilização da auriculoterapia, terapia floral e toque terapêutico como estratégias complementares ao acompanhamento convencional. Além disso, contribui para ampliar as opções terapêuticas disponíveis para mulheres que apresentam contraindicações ou optam por não utilizar terapia hormonal.
A participação de pesquisadoras reconhecidas nacionalmente nas áreas de enfermagem, práticas integrativas e saúde da mulher confere ainda maior relevância científica ao estudo, tornando-o uma importante referência para pesquisadores, profissionais da saúde e instituições de ensino.
Palavras-chave
Climatério; Menopausa; Auriculoterapia; Terapia Floral; Toque Terapêutico; Saúde da Mulher; Ansiedade; Insônia; Fogachos; Práticas Integrativas e Complementares em Saúde; Medicina Integrativa.