Perfil Sociodemográfico e de Formação dos Profissionais de Enfermagem do Estado de São Paulo em Relação às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde
Escrito por Leonice Fumiko Sato Kurebayashi
Pesquisa com 3.794 profissionais de enfermagem revela o perfil de formação em PICS no estado de São Paulo, destacando auriculoterapia, acupuntura e Reiki.
Autores: Juliana Rizzo Gnatta, Thiago da Silva Domingos, Edilaine Cristina da Silva Gherardi-Donato, Suzimar de Fátima Benato Fusco, Leonice Fumiko Sato Kurebayashi, Talita Pavarini Borges Revista Científica: Revista Latino-Americana de Enfermagem (RLAE). 2024;32:e4204. Link para o artigo original (PDF da revista): link DOI: link
Resumo Expandido
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) vêm ocupando espaço crescente nos sistemas de saúde em todo o mundo, impulsionadas pelo reconhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela ampliação das políticas públicas voltadas ao cuidado integral. No Brasil, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), criada em 2006, consolidou a inserção dessas práticas no Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando progressivamente o acesso da população a recursos terapêuticos como acupuntura, auriculoterapia, Reiki, meditação, yoga e diversas outras abordagens integrativas.
Nesse cenário, a enfermagem ocupa posição estratégica devido à sua expressiva representatividade entre os profissionais da saúde e à proximidade com os usuários dos serviços. Entretanto, apesar do crescimento das PICS, ainda existem lacunas importantes relacionadas ao perfil, à formação e à capacitação dos profissionais de enfermagem para atuar nessa área. Com o objetivo de preencher essa lacuna científica, o presente estudo analisou o perfil sociodemográfico e de formação dos profissionais de enfermagem do estado de São Paulo em relação às PICS.
Trata-se de um estudo observacional, transversal e descritivo realizado entre julho e setembro de 2022, envolvendo 3.794 profissionais de enfermagem provenientes de 645 municípios paulistas. A pesquisa foi desenvolvida por meio de questionário eletrônico aplicado a enfermeiros, técnicos, auxiliares de enfermagem e obstetrizes com registro ativo no Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP).
Os resultados revelaram um panorama ao mesmo tempo promissor e desafiador para a enfermagem brasileira. Dos 3.794 participantes, apenas 479 profissionais (12,62%) possuíam formação em alguma Prática Integrativa e Complementar em Saúde. Além disso, aproximadamente 39% dos respondentes declararam desconhecer as PICS, demonstrando que ainda existe uma importante lacuna de informação e sensibilização sobre o tema dentro da categoria profissional.
Entre os profissionais que possuíam formação na área, observou-se predominância do sexo feminino, idade média em torno de 43 anos, maior nível de escolaridade, especialização lato ou stricto sensu e aproximadamente quinze anos de experiência profissional. A análise estatística demonstrou que fatores como idade, maior escolaridade, menor carga horária semanal de trabalho e conhecimento prévio sobre as PICS estiveram associados à maior probabilidade de possuir formação nessas práticas.
As práticas mais frequentemente estudadas pelos profissionais de enfermagem foram a auriculoterapia, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC)/acupuntura e o Reiki. Esses resultados demonstram a forte presença das racionalidades orientais e das terapias energéticas entre os interesses formativos da enfermagem paulista. A auriculoterapia destacou-se como a modalidade mais frequente, seguida pela acupuntura e pelo Reiki.
Outro achado relevante refere-se às características dos cursos realizados. A maioria dos profissionais obteve formação por meio de cursos livres, presenciais e com abordagem teórico-prática. O estudo identificou grande variabilidade na carga horária das formações, evidenciando ausência de padronização curricular para diversas práticas. Enquanto algumas modalidades apresentaram cursos com poucas horas de duração, outras alcançaram formações extensas, especialmente em acupuntura, naturopatia e terapia comunitária.
A análise dos dados também demonstrou que profissionais com formação em PICS geralmente tiveram contato prévio com essas práticas, seja como usuários dos serviços de saúde, durante a formação acadêmica ou por experiências institucionais. Esse resultado sugere que a exposição precoce às PICS favorece o interesse e o engajamento profissional na área, reforçando a importância da inclusão dessas temáticas nos currículos da graduação em enfermagem e demais cursos da saúde.
Os autores discutem que, apesar dos avanços obtidos pelas políticas públicas e pelo reconhecimento das PICS como especialidade de enfermagem pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), ainda existem desafios importantes relacionados à formação profissional, à regulamentação curricular, à oferta institucional das práticas e ao reconhecimento da atuação dos enfermeiros nos serviços de saúde. Também destacam a necessidade de fortalecer políticas de educação permanente para ampliar a qualificação da categoria.
O estudo conclui que existe interesse crescente da enfermagem pelas PICS, porém a formação ainda permanece limitada a uma parcela reduzida dos profissionais. Os autores defendem a criação de diretrizes mínimas para capacitação, a ampliação da oferta de cursos qualificados e a integração mais consistente das PICS nos currículos da formação em saúde, visando garantir atendimento seguro, qualificado e baseado em evidências para a população.
Importância do artigo para as PICS e a Enfermagem
Este artigo representa um dos maiores levantamentos já realizados sobre a formação da enfermagem em PICS em São Paulo. A pesquisa reúne dados de quase quatro mil profissionais distribuídos em centenas de municípios do estado de São Paulo, oferecendo um panorama inédito sobre o conhecimento, a formação e a atuação da categoria nas práticas integrativas.
Os resultados possuem grande relevância para gestores, pesquisadores, instituições de ensino e conselhos profissionais, pois evidenciam a necessidade de investimentos em educação, regulamentação e qualificação profissional. Além disso, fortalecem a discussão sobre a inserção das PICS na formação acadêmica e na prática clínica da enfermagem. Por contar com a participação do Grupo de Trabalho de PICS do Coren-SP e de pesquisadores reconhecidos nacionalmente na área, o estudo constitui uma importante referência científica para a consolidação da enfermagem integrativa no Brasil.
Palavras-chave
Práticas Integrativas e Complementares em Saúde; PICS; Enfermagem; Formação Profissional; Perfil Profissional; Auriculoterapia; Acupuntura; Reiki; Medicina Tradicional Chinesa; Enfermagem Integrativa; SUS; Educação em Saúde.